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25/08/2015 15:20

Perfil: A beleza do gris

Por Marcia do Amparo

Cinza, duro e resistente. Assim se pode definir o concreto, material tão utilizado por todos os cantos da cidade. Entre curvas tangentes, estruturas armadas e especificidades, o concreto compôs o canteiro de obras da vida de Tatiana Bittencourt Dumêt. Soteropolitana, 50 anos, filha de advogado e terapeuta ocupacional, a irmã mais velha de duas administradoras, tornou-se diretora da Escola Politécnica da Universidade Federal da Bahia.

Com voz suave, Tatiana parece quebrar toda camada de concretude do meio acadêmico, ao tomar posse como diretora de uma instituição, tradicionalmente, gerenciada por homens. Deste fato, ela, primeira mulher diretora da Politécnica, fala com naturalidade desde a montagem da chapa para eleição. “Estamos escolhendo duas pessoas, independente do gênero”. A chapa, composta também por Regina Viana, recebeu 476 votos para a gestão 2014-2018.

Tatiana nasceu no dia 08 de maio. Na infância, estudou em escolas na região da Barra e no Instituto Social da Bahia (Isba). Aos finais de semana, veraneava na praia de Itapuã. Essa proximidade com o mar trouxe a curiosidade em conhecer a vida subaquática, mergulhando em pontos da Baía de Todos os Santos. Talvez do desejo de cursar biologia tenha impulsionado esta afinidade com o mar, fazendo-a apreciar a festa para Iemanjá, no dia 2 de fevereiro, ainda que de religião católica.

Quando veio a adolescência, fez teste vocacional, pois ainda não havia decidido seu campo de atuação profissional. Sobre o teste, parece não ter ajudado muito no final das contas. “Deu uma pancada de coisas e não ajudou em muita coisa não”, disse, sem prender o riso. Por conta própria, acabou decidindo cursar engenharia civil, já que desde a infância viu a beleza dos livros e jogos que traziam os problemas matemáticos.

Apesar do cinza estar presente em sua vida, por meio do concreto, tão estudado por Tatiana – que titulou-se em diversas pesquisas de concreto armado, concreto protendido, dimensionamento e fôrmas, ele não é motivo para tristeza ou descontentamento. É possível dizer que ela ressignificou o cinza do concreto, o convertendo em motivo de alegria e encantamento pela profissão. Com vestido floral, sorriso fácil e olhar ansioso à espera das perguntas que responderia para dar origem ao seu perfil, Tatiana consegue traduzir no seu ambiente de trabalho ar de feminilidade nos tons de amarelo das cadeiras no canto da sala e até nas formas geométricas da sua mesa, onde faz a gestão da Politécnica desde as 9h estendendo-se, muitas vezes até depois das 18h.

“É engraçado essa coisa da gestão. O que mais demanda tempo da gente é resolver pequenos problemas, porque todo mundo quer trazer os problemas para você, por que isso faz parte também. Então, o que acho que deveria ser o papel maior do gestor, que era pensar na filosofia, nas diretrizes, acaba tendo menos tempo”, reflete, pouco antes de ser interrompida por um professor que lhe entregou um documento.

Tatiana considera todas as épocas importantes. “Eu faço o que gosto e do que tenho hoje”. Mas, depois de se tornar professora ouviu alguns comentários machistas do tipo: “a Escola vai ficar mais bonita”, “mais rosa”, comentários estes que sempre rebateu com firmeza: “vai ficar mais competente também”. Mas, quando se trata de questão de gênero, homofobia e sexismo dentro da instituição, ainda que fora da Politécnica, Tatiana se posiciona, como em um caso recente no Instituto de Física da Ufba. “Nesse caso, a UFBA fez a comissão e está sendo apurado o que realmente ocorreu. Se ficar comprovado que houve esse comportamento, deve haver algum tipo de punição”, sustenta.

Tatiana

Ela não parece levantar qualquer bandeira pelo feminismo, mas sim pela igualdade, pela melhoria na educação. É tanto que na durante participação na Mesa Redonda sobre a inserção das mulheres no campo de trabalho das Engenharias e Novas Tecnologias falou sobre os preconceitos sofridos pelas mulheres que estão no campo das exatas. “Essas discussões e essas ações são importantes porque dão um apoio para aquelas pessoas que têm medo, que acham que não vão conseguir. Nossa missão também é mostrar que não é só você que está nesse barco”.

Preocupa-se com o cenário atual do país e da Universidade Federal da Bahia, que enfrenta crise financeira depois que o governo federal fez cortes no orçamento. Defende a excelência dos profissionais baianos das áreas de engenharias e arquitetura, da utilização comedida do concreto para a capital baiana, sem deixa-la com aspecto de cidade de pedra e critica o poder político estabelecido para além dos interesses da população. “O nosso problema maior hoje não é técnico, é político, então, muitas vezes, ações que deveriam ser decididas por técnicos, são decididas por interesses políticos. Às vezes você tem um problema em determinada região, não porque não tinha um profissional da engenharia e arquitetura competente, mas porque tinha interesse político que estava acima”.

Do serviço no canteiro de obras, antes todo feito de forma braçal, Tatiana tem orgulho da trajetória profissional que alcançou, sendo grande parte dela em terras soteropolitanas. A afeição e empatia pelo curso de Engenharia Civil foram tamanhas, que nos dias atuais se vê tão absorvida pelas atividades da diretoria da Politécnica, que há mais de um ano não vai ao teatro ou cinema. Antes desse tempo de muito trabalho e dedicação, aproveitava o tempo livre para prestigiar as produções teatrais baianas e o circuito alternativo de cinema. Sobre música, o que o rádio estiver transmitindo, ela escuta. Seu playlist vai de Marisa Monte e Adriana Calcanhoto ao Sertanejo, apreciado, ainda que timidamente, pela nossa personagem.

As linhas deste texto ainda estão bem distantes de descrever Tatiana Dumêt. Trata-se apenas de uma pequena parcela de materiais expostos no canteiro de obras que é a vida da diretora da Escola Politécnica da maior universidade federal da Bahia. Mulher, nordestina, baiana, que enxergou a beleza do gris, obtida no concreto, que em suas formas e arranjos oferece infraestrutura, emprego, abrigo e principalmente, solidez do espaço, Tatiana se despede com o olhar de quem sabe que sua contribuição tem sido muito importante para romper velhos paradigmas.


Tatiana Bittencourt Dumêt – Diretora da Escola Politécnica da Ufba

Possui graduação em Engenharia Civil pela Universidade Católica do Salvador (1988), mestrado em Engenharia Civil na Universidade de São Paulo (USP-Capital -1995) e doutorado em Engenharia Civil (Engenharia de Estruturas) pela Universidade de São Paulo (USP-São Carlos -2003). Atualmente é Professora Associada da Universidade Federal da Bahia e Diretora da Escola Politécnica da UFBA. Tem experiência na área de Engenharia Civil, com ênfase em estruturas de concreto, atuando principalmente nos seguintes temas: concreto, concreto armado, concreto protendido, dimensionamento e fôrmas.

(Texto disponível na Plataforma Lattes).

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