• Novs sedes e visturas reforçam segurança no Sudoeste

Notícias

11/11/2015 10:30

No "paradise" da tecnologia

Por Marcia do Amparo

No peculiar mundo que imaginamos para os nerds, a personalidade do nosso personagem condiz com um sujeito reservado, focado e tímido. Aquele estereótipo do cientista esquisito, de óculos, suspensório e gravata borboleta não se encaixa em Ivan do Carmo Machado. O rótulo criado por livros, desenhos e até mesmos nos cinemas é algo distante na vida deste baiano, que recebeu a visita de nossa equipe mostrando como aproveitar uma tarde ensolarada na primeira capital do Brasil. À beira da piscina, de camisa, bermuda e sandália, Ivan bateu um papo descontraído ao contar sua trajetória.

perfil Ivan

Nascido em Catu, cidade com 51 mil habitantes, ganhou o mundo ao concluir a graduação. Ivan, que teve sua infância numa época em que tablets e smartphones deviam estar apenas nas mentes de seus criadores, se divertia com o computador de casa. Aos nove anos já programava os joguinhos para se divertir junto com o irmão. O menino preferia fazer suas traquinagens na frente da tela do PC, desenvolvendo, assim, seu interesse pelas atividades intelectuais do universo da tecnologia.

Apesar de os aparelhos serem caros, além do empecilho da internet discada, o menino Ivan não se importava e reunia a turma do colégio para as competições online. "A gente sempre queria ir mais, passar de fase dos jogos, sempre queria zerar os joguinhos e pra zerar tinha que ir além, buscar informação, mesmo na internetzinha discada, 56kb. Talvez isso tenha sido um fator que mais tenha me chamado atenção", fala ao explicar o interesse inicial por programação.

E o que era brincadeira de criança acabou por despertar na cabeça do menino aquilo que seria a sua vocação. Mesmo ainda na infância, durante as brincadeiras de morto-vivo, boca de forno, bolinha de gude, esconde-esconde e muitas outras nas ruas de Catu, Ivan soube equilibrar seu tempo entre a diversão na rua e em casa com seus jogos preferidos. "A minha infância foi bem legal, foi bem diferente do que eu tenho visto nos últimos anos. As crianças não vão mais para as ruas".

Frase1

Filho de mãe bancária e pai industriário, hoje ambos aposentados, Ivan lembra com carinho do esforço que os pais faziam para bancar os estudos dele e do irmão. O casal incentivava os filhos a aproveitarem o que eles podiam oferecer de estrutura material naquele momento.

Na época de ensino médio, Ivan foi aluno aplicado, gostava de disputar com outros colegas para ser o melhor da turma. Conta, orgulhoso, que no 3º ano ganhou um troféu de aluno destaque. Por influência também da família, na adolescência, Ivan frequentou a Igreja Católica da sua cidade. Não foi coroinha, mas participou do grupo jovem, do coral, recebeu o sacramento da crisma. Isso manteve a ligação de Ivan com o sagrado, revelando sua devoção ainda atual com Nossa Senhora de Aparecida.

Se em Salvador quem tem fé vai a pé até o Bonfim, para Ivan ir ao município de Aparecida, foi um ato de gratidão e fé a Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil. Mas como lidar com a ciência e a fé? Como que soubesse a pergunta que estava por ser feita, Ivan se antecipou e respondeu: "O cientista, em essência, acredita em evidência e fé não tem evidência. Para alguns. Para quem vive fé tem sim. Leio sobre todas as religiões, até o que não deveria ler, eu leio, me influencio positivamente. Não existe conflito", diz, na tentativa de explicar um conflito sempre muito polêmico.

E para quem estava acostumado com os ares de Catu, localizada no território do Litoral Norte e Agreste Baiano, aproximadamente a 32 km de Alagoinhas e 110 km de Feira de Santana, Ivan acreditou que poderia expandir mais seu conhecimento acadêmico. Pensou, nas idas e vindas diárias de Alagoinhas, onde cursou Análise de Sistemas junto com o irmão, mergulhou na gestão de variabilidade, enquanto o irmão preferiu a área de eletrônica.

Deixou a praça, a feira e a igreja de Catu. Pegou a hashtag #partiu e foi morar em Recife. Na terra do Marco Zero, que mistura maracatu com rock, música eletrônica para compor o manguebeat, o pesquisador foi trabalhar em um projeto da Motorola e também cursou o mestrado na Federal de Pernambuco. Mesmo longe da família e amigos, Ivan fala da experiência como positiva contribuição para seu crescimento. "Cresci como pessoa, como profissional e despertei a vocação para a academia".

Depoimento 2

A saudade apertou. Planejou voltar para Salvador. Conseguiu retornar para mais perto dos amigos e familiares e até torcer mais para o seu time de coração: Esporte Clube Vitória, ainda que a prioridade fosse mesmo a academia e a família, já que revelou dificuldade em comparecer ao Estádio Manoel Barradas prestigiar seu time. Em 2014 conseguiu ir apenas a um jogo, o Ba-Vi, clássico maior do futebol baiano.

Apreciador de bons livros e também da sétima arte, não dispensa um bom espetáculo teatral. Foi em todas as peças da Companhia Baiana de Patifaria e fez questão de revê-las. No tempo livre, mergulha no trabalho com uma companhia diferente: a banda Coldplay. Ele classifica como 99,9% a importância que as melodias têm na sua vida. E fã que é fã comete algumas loucuras por seus ídolos ou ao menos planeja cometê-las. Foi bem o que aconteceu com este professor.

Em 2010, o Coldplay anunciou que faria show no Brasil. Ivan ganhou o ingresso e vibrou com a proximidade de realizar um sonho! Já tinha tudo pronto: hotel, passagem. O coração palpitava de ansiedade, riscava os dias no calendário. Só que pouco tempo antes recebeu a notícia de que aconteceria a seleção para professor substituto na Universidade Federal da Bahia.  Desfez os planos para ir ao show. Trocou um sonho por outro. Na certeza de que tudo tem seu momento, em nova oportunidade, se antecipou e comprou ingresso para apresentação da banda no Rock in Rio com seis meses de antecedência.

Quem sabe a música tenha lhe dado inspiração necessária para escrever um artigo junto com o grupo de pesquisa, do qual fazia parte, o "RiPLE-TE: A Software Product Lines Testing Process" que conquistou o ganhou o prêmio de melhor dissertação do Brasil em qualidade de software e figura no top 10 de um dos maiores periódicos do mundo.

"Esse artigo do nosso grupo de pesquisa é o mais citado. É uma revisão de literatura sobre testes em linha de produtos de software". E o trabalho deu outros frutos quando outros mestrandos e doutorando seguiram a mesma linha de pesquisa e publicações, premiações e viagens.

Ivan recebendo o prêmio

Foto: Divulgação

A dedicação de Ivan levou até o Tio Sam, quando passou sete meses do doutorado nos Estados Unidos. "Estamos falando do país onde tecnologia é ponta. Você tem recursos, tem incentivos governamentais e não governamentais, que fazem com que as coisas aconteçam". Por isso, o pesquisador deposita sua fé e esperança no progresso da ciência e tecnologia no Estado da Bahia.

"A gente não pode deixar de tentar, deixar de tentar de escrever os projetos, deixar de tentar angariar recursos e a gente não pode ir apenas para o governo, né? A gente tem que começar a fazer uma interação muito forte com a indústria, capital privado precisa investir em pesquisa e inovação, ciência e educação", disse o pesquisador.

Entusiasta, Ivan pretende levar uma semente do conhecimento aos seus alunos do departamento de Ciências da Computação da Ufba. Do qual se estabelece professor nos próximos meses. É o começo de uma nova jornada para o menino de Catu, que defenderá tese é possível "fazer um pouco mais" e conquistar o "paradise" da ciência, tecnologia e inovação.

Recomendar esta notícia via e-mail:

Campos com (*) são obrigatórios.