• Novs sedes e visturas reforçam segurança no Sudoeste
  • Programa Secti na Área

Notícias

29/12/2015 14:00

Na sintonia dos games

Por Marcia do Amparo

Dez letras compõem o seu nome. Nasceu em julho. Herdou da avó italiana os olhos verdes, dos avós paternos um pouco do negro e do índio. As tranças estão no seu cabelo por opção. Como ela define: sou uma mistureba! Arrisco a dizer que ela é uma autêntica baiana brasileira. Cristhyane Ribeiro, última do ano de 2015 na nossa série de perfis, capitaneia a Sinergia Games, empresa incubada no Parque Tecnológico da Bahia.

Foto: Carla Ornelas/GOVBA

Nas primeiras conversas, chamou atenção o jeito tranquilo, uma leve rouquidão na voz e um tom esotérico. Todavia, Cris (assim todo mundo a chama, e ela assina nas conversas com amigos e conhecidos) tem presença marcante na área gamer, tendo começado no Recife, quando trabalhava no Porto Digital.
 
“Trabalhava numa empresa de consultoria de qualidade de software e conheci muitas pessoas nessa área. Eu vi as possibilidades que a tecnologia traz para a disseminação do conhecimento. O jogo traz uma coisa a mais que a pessoa se diverte ao mesmo tempo, não é uma coisa tão séria como um sistema”, explicou.
 
Porém, antes da motivação para trabalhar com games, Cris quis ir além e estudar a relação entre pessoas e o cosmo. Mas, por que uma estudante de Administração da Universidade Federal da Bahia teve o interesse em aprofundar os conhecimentos na psicologia junguiana? Talvez, essa conexão com a psicologia humanista e o olhar para   o cósmico tenha começado durante a série de mudanças de endereço na sua infância.
 
Nasceu em Itabuna e apesar de ser conterrânea do escritor Jorge Amado, ela veio para Salvador nos primeiros anos de vida, passou uma curta temporada e embarcou para São Paulo e depois Belo Horizonte. Quando estava concluindo o ensino médio retornou para a capital baiana. Tendo o pai como auditor do Banco do Nordeste, não conseguia passar mais que de cinco anos em cada cidade.
 
Com tantas idas e vindas, criou muitos laços de amizade, de amor, de trabalho. Explica que isso não atrapalhou, mas tomou gosto pelo estudo e ampliou sua visão acerca do autoconhecimento. “Sempre gostei muito de estudar. Uma das coisas que me marcou foi querer explorar o que estava além da sala de aula. Tem diferença nas escolas, abordagem diferente. Eu gostava de viver essas diferenças”.

aspas1
 
Na adolescência, em São Paulo, desbravou as novidades que a metrópole tinha a oferecer antes de voltar para Salvador. Escrito nas estrelas e bem marcado em cartas de tarô, como dizia a música, o destino de Cristhyane a levou ao estudo da astrologia. “Comecei a gostar demais a ponto de pensar em mudar o curso para psicologia. Mas eu não mudei na época porque onde eu estudava não tinha a abordagem que eu tava gostando mais, então resolvi estudar sozinha mesmo e continuei o curso de ADM”.
 
Neste momento da vida, conheceu uma escola de desenvolvimento humano que ficava na Sibéria-Rússia. “Fui conhecer essa escola, me aprofundei no assunto e passei a ser professora dessa escola. Então, eu aprendia coisas na Rússia e voltava e ensinava no Brasil. Fiquei seis anos nesse movimento, era uma escola muito diversa. Foi um momento que me abriu muito os horizontes”.
 
Foram cinco anos e 14 idas e voltas entre Sibéria e Brasil, de 2003 a 2008. Aproveitou as viagens para turistar pela Europa. Cris conta que “várias perspectivas se abriram nesse momento pra mim, tanto no intrapessoal, como possibilidades de fazer algo no mundo. Viajei o Brasil todo levando seminários, cursos que realizávamos”.
 
O período foi intenso no estudo do horóscopo, arquétipos, comportamento humano e psicologia. Sobre as perguntas de nossa equipe acerca do mundo da astrologia, de pronto respondeu como funciona o horóscopo. “É um mapeamento do céu, da constelação e dos planetas no momento do nascimento da pessoa. Então, é tipo um retrato do céu no momento em que a pessoa nasceu”.
 
E a vida de Cristhyane também entrou na sintonia  descrita para a Era de Aquário quando decidiu mergulhar totalmente no mundo dos jogos eletrônicos. Deixou o ritmo intenso de viagens por uma vida mais centrada em Salvador.  “No dia a dia estou mais focada no desenvolvimento dos projetos, pensando em como fazer esse modelo de negócio. E isso me ocupa bastante, busco conhecer outras empresas, outras pessoas que também trabalham com jogos”.
 
O interesse por transpor o desenvolvimento pessoal para os games é tamanho que Cristhyane já obtendo o título de mestrado decidiu ingressar na especialização de game designer, na Uneb. Seu interesse está, principalmente, por um jogo de liderança feminina, desenvolvido pela Sinergia, pois acredita que esta é uma forma de contribuir com o debate sobre as mulheres nos diversos espaços da sociedade.
 
“Porque a gente vê todo o contexto atual, as mulheres ganharam um certo espaço, mas ainda existe uma diferença muito grande nos cargos de liderança, na gestão das empresas, aonde se toma a decisão mesmo a presença da mulher ainda é bem insipiente. Isso tem várias consequências. Por conta disso as mulheres não tem oportunidade e também tem um aspecto bem pessoal que as próprias mulheres, por conta da educação, da cultura, já se colocam no lugar de não ter um papel muito ativo, mas tem mudado bastante”, fala com a autoridade de quem entende do assunto, atualmente no cargo de diretora da Sinergia Games.

aspas2
 
Além do jogo de liderança feminina, a empresa também cria jogos eletrônicos a partir de narrativas mitológicas com influência das lendas africanas. Apesar de trabalharcom jogos de temática religiosa, Cristhyane não tem nenhuma religião, se considera espiritualista, de que existe um ser superior. Por lidar com os mais diversos públicos, ela conta que já vivenciou situações de preconceito devido às temáticas dos jogos. Durante a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia “uma professora que foi lá no nosso stand e viu “Feitiço de Exú”, disse: eu não vou jogar, achei que era coisa de demônio”.
 
Com a altura de uma jogadora de vôlei, chegou a praticar o esporte durante o ensino médio. Confessou que participou de seleção de jogos intercolegiais, da 6º série ao 2º ano, contudo, a vida de atleta não vingou. “A vida foi seguindo e eu fui fazendo essas escolhas de viajar. Filhos eu não penso mais, mas, relacionamento sim! Mas pode ser que eu mude de ideia, mas, neste momento, o foco é outro”.
 
Fala sobre dificuldades e prazeres da ciência, tecnologia e inovação comentando que o caminho se tornou mais longo que esperava para a comercialização dos produtos da empresa. “No nosso caso [a empresa], como é bem inovador mesmo, é algo que talvez o usuário consumidor que a gente está vislumbrando, ele nem tenha necessidade. Ele não tem a necessidade consciente, embora eu ache que pode contribuir muito, mas é algo que ainda vai ser criado, vai ser concretizado.  Apesar de não ser o resultado que eu gostaria que já tivesse alcançado, mas já vejo que a gente tá dando passos bem significativos e sendo reconhecido, embora não seja o sonho final”.

SNCT
 
Dos planos de vida, Cristhyane pretende tocar os projetos de afrodescendência e iniciar os trabalhos com atividades indígenas, a exemplo do folclore brasileiro e, principalmente, fazer a startup crescer como empresa de jogos baianos. Por esses trabalhos, a diretora da Sinergia Games ganhou, em 2014, um concurso de cultura do Ministério da Cultura e esse ano o prêmio Funarte, para artistas e produtores negros, também do Ministério da Cultura.
 
Se ela pudesse alinhar os planetas e projetar o sucesso da empresa, diria que espera consolidar esse modelo e ter uma diversidade de produtos que possam atender o mercado, tanto na parte de cultura quanto desenvolvimento pessoal. “Espero que a Sinergia seja um destaque nesse mercado que agora está crescendo”.
 
Quem sabe o zodíaco conspira para esses desejos se tornarem reais. Uma coisa já se sabe, Cristhyane exala dos olhos e do sorriso uma calmaria digna de uma pessoa alto astral e de quem acredita que a vida é um milagre que pode ser celebrado todos os dias.

 edital

Chamada Pública – Áity Incubadora 001/2015 



Recomendar esta notícia via e-mail:

Campos com (*) são obrigatórios.