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23/02/2016 10:30

A serviço de 100 milhões de brasileiros

Por Marcia do Amparo
 
Pelos idos de 1904, as ruas estavam sujas, os bueiros entupidos, em cada canto lixo espalhado, pelas vielas batalhão mata-mosquito e população revoltada com a campanha de vacinação obrigatória, encabeçada pelo médico sanitarista, epidemiologista, Oswaldo Cruz. Hoje, mais de 100 anos depois, o cenário das cidades e população já não é o mesmo, no entanto a luta contra mosquitos transmissores e o aparecimento de doenças são os velhos novos dilemas das ciências da saúde.
 
Na linha de combate às mazelas e contribuindo para a melhoria da saúde da população, se apresenta Maurício Barreto. O pesquisador baiano coordena o projeto Coorte de 100 milhões de brasileiros, através da Fiocruz, que pretende criar um banco de dados capaz de compilar informações de programas sociais do Governo Federal. Com isso, o projeto poderá analisar os impactos de políticas sociais na saúde, gênero, etnia e educação na sociedade. O objetivo central é trabalhar com os efeitos de proteção social na saúde.
 
Hoje, aposentado da Ufba, o professor Maurício Barreto é pesquisador sênior da Fiocruz, tendo participado da construção da pós-graduação do Instituto de Saúde Coletiva da Ufba, único do Nordeste nota máxima pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). Mauricio segue coordenando o projeto Coorte de 100 milhões de brasileiros, com convênio com a Secti, Senai Cimatec, que vai instalar um centro de dados no Parque Tecnológico da Bahia, onde Salvador terá o Centro Nacional Único para essas análises. Além de participar como colaborador em programas de diversas áreas do conhecimento, tendo publicado mais de 350 trabalhos em revistas científicas, mais de 40 monografias e capítulos de livros.
 
Vale salientar que o termo coorte é utilizado para determinado grupo de indivíduos que têm em comuns características que serão observadas durante um período de tempo com o objetivo de analisar a sua evolução. Ou seja, são realizadas pesquisas observacional, longitudinal e analítica para chegar a resultados, principalmente, sobre a saúde final dessas pessoas. 
 
A trajetória deste baiano notável começou na cidade de Itapicuru, município fronteira com Sergipe, no sertão da Bahia, onde os cumprimentos de “bom dia”, “boa tarde” e “boa noite”, “como vai a família” ao Seu João da padaria, a Dona Maria do leite, ao Seu Antônio do mercadinho eram obrigatórios  na cidade que então tinha cerca de 3 mil habitantes. “Era uma cidade muito calma, tranquila, previsível, pequena, onde todo mundo se conhecia. A vida era muito livre. Como criança foi uma experiência boa ter vivido lá. Era uma cidadezinha, mas muito próxima às coisas naturais”, relata Barreto.

Itapicuru
 
Desde a educação básica, cursada em Itapicuru, Maurício se mostrava estudioso e interessado em conhecer detalhes da relação entre os seres vivos e o meio ambiente. Pronto, tinha uma ideia: Ecologia! Seria esta a ciência da sua vida. A vida do menino seguiu seu curso. Com oito anos, ele e seus sete irmãos mudaram para a capital baiana. O pai, funcionário público, decidi ir para Salvador e oferecer melhor educação para os meninos.
 
Maurício fala do impacto em sair de Itapicuru e residir na terra da Baía de Todos os Santos. “Era meio um choque você sair da cidadezinha e vir para uma metrópole. Salvador tinha outro estilo de vida, enquanto que era bastante diferente você morar numa cidadezinha, quase rural. Então essa mudança foi uma experiência adaptativa grande, familiar e pessoal”, destaca.
 
Na adolescência, a estadia em Salvador motivou o rapaz à área de pesquisa. Deixou o primeiro plano de cursar ecologia e prestou vestibular para medicina. “Com 17 anos fiz vestibular para Universidade Federal da Bahia. Fiz uma vez e passei. Mas, minha tendência em medicina foi fazer saúde publica e epidemiologia, que é o que faço hoje, que é minha ciência. De alguma forma tem proximidade e familiaridade com a ecologia, com estudos de população”.
 
“Eu queria ser pesquisador, que eu nem sabia o que era direito. Isso era uma decisão precoce. Então, essas são as minhas opções, que não sei o que teria acontecido se eu tivesse feito biologia. Seria outra coisa, né? Achava interessante, não sei nem por que. Achava interessante essa coisa da pesquisa, do pesquisador. Era uma coisa intuitiva, da convivência na escola, de leituras, era mais intuitivo, do que saber claramente, o que era isso”.
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 A paixão do itapicuruense pelo campo da pesquisa científica renderam-lhe reconhecimento, principalmente, quando recebeu a primeira edição do Prêmio Roberto Santos de Mérito Científico pelas contribuições à ciência para o desenvolvimento do Estado. Porém, as honrarias recebidas em sua carreira não o envaidecem. Para ele, o prêmio é um reconhecimento e “sinaliza que você está dando contribuições razoáveis para a sociedade, porque o que você está fazendo tem algum valor. Recebo o prêmio e no dia seguinte venho trabalhar”.
 
Essa naturalidade é de quem retoma a rotina facilmente entre as orientações aos alunos da Ufba e aos projetos ligados à Fiocruz. Contudo, o professor, pesquisador e pai de três filhos – o mais velho, filho do primeiro casamento é médico cirurgião, a filha do meio formou-se em direito e a caçula está concluindo o curso de História – dedica seu tempo a um hobby esportivo, o tênis. Entre uma partida e outra sofreu uma torção no pé, mas pretende voltar logo para as quadras. Prefere o tênis ao futebol, que quando jovem jogava aquele conhecido “baba” com os amigos.
 
Sempre que pode faz suas caminhadas, leituras, principalmente em casa, onde tem sua biblioteca particular. “Minha casa é feita para relaxar, me desconectar um pouco do mundo. Tento me conectar com outras coisas”, confessa. E pra acompanhar que tal um bom jazz? O ritmo musical é preferido pelo pesquisador, que fala sobre o encanto com o saxofone. “Quando me aposentei, disse: vou aprender a tocar saxofone, mas é muito difícil. Voltei a trabalhar mais intensamente e não tive mais tempo”, afirmou.
 
Barreto também não descarta os clássicos da música popular brasileira, como as canções de Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano e Bethânia. Admite gostar mais de cinema ao teatro. “Gosto muito de cinema. Vou com regularidade ou assisto em casa. Hoje, com o Netflix e outros sistemas fica mais fácil”. O pesquisador confessa as tentativas de ir ao teatro sempre que viaja a trabalho ou nas férias em família. A participação em seminários e congressos já o levou a conhecer mais de 40 países.
 
Por tanto conhecimento acumulado ao longo desses anos dedicados à ciência, Maurício Barreto, quando perguntado sobre a importância de fomentar a ciência e a tecnologia na sociedade, acredita que há um esforço por parte do sistema. “A entrada da Fapesb, da Secti, na cena baiana trouxe uma mudança importante. Mas, a base científica e tecnológica do Estado é muito baixa. Então, o esforço é de desenvolver essa base científica, tecnológica, de maneira rápida”.
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O professor e pesquisador acredita que é necessário definir prioridades em investimentos estratégicos em linhas que possam ser importantes. “Que sejam criadas novas universidades e novos institutos de pesquisa. Eu acho que há esse esforço, há clareza disso, mas há dificuldade no momento atual. Acho que ciência e tecnologia é parte da vida das pessoas, então você tem que ter um sistema de ciência e tecnologia para formar pessoas, que eduque a sociedade em termos de C&T”.
 
Nesta esperança e missão, Mauricio Barreto é um pesquisador que busca por conhecimento em diversas áreas e isso o torna reconhecido pelos seus pares. Espera no futuro próximo continuar atuando e contribuindo nas suas duas principais linhas de pesquisa: da asma e das políticas de proteção social na saúde. Os desafios intelectuais que exigem abordagens multidisciplinares talvez sejam a fonte de inspiração para o trabalho de Maurício Barreto, onde ele diz quase que como um mantra: “A ciência é enfrentar desafios”.

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