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31/03/2016 10:20

Uníssono com a vida

Por Marcia do Amparo

Uma combinação improvável. Dois personagens. Uma vida em uníssono: Jania Betania. E desta mistura quiçá imperfeita, tendo a inspiração do nome altivo de Jânio Quadros e da poesia e voz marcante de Maria Bethânia, a menina que nasceu no interior da Paraíba, na cidade de Itaporanga, constrói um legado que inspira colegas e alunos.

Professora, pesquisadora, doutora em engenharia química, Jania Betania saiu do sertão paraibano para cursar o ensino médio em Campina Grande. Tomou gosto pelos estudos. Traçou uma meta: ser pesquisadora! Consumidora de doses extras de positivismo, diz: “As coisas foram se encaixando de maneira tão perfeita para chegar onde sonhei”.

Talvez, Jania Betania tenha ouvido e concebido os versos de Dorival Caymmi.
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Desde que chegou à Bahia em 2006, a pesquisadora realizou alguns feitos. [A Bahia já estava marcada em Jania e ela nem sabia].

Conquistou o primeiro lugar na categoria pesquisadores, do prêmio Ideias Inovadoras de 2013, promovido pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia (Fapesb). Com o projeto “Preparação de blendas poliméricas ambientalmente degradáveis reforçadas com nanocristais/nanowhiskers de celulose para produção de filmes flexíveis por extrusão”, Jania Betania conseguiu reconhecimento por sua árdua pesquisa.

Para contar essa história, iremos viajar para Itaporanga, 12 de abril de 1983. No ano marcado pela estiagem no Nordeste brasileiro, nascia Jania Betania Alves da Silva. O primeiro nome sugerido pela tia, que morava em São Paulo, o segundo nome foi escolhido pela mãe, funcionária pública da área de educação, fã da cantora Maria Bethânia. “É quase um poema de rima pobre. Na Bahia eu sou conhecida como Jania e na Paraíba como Betania”.

Quem via a menina brincando de amarelinha, baleado e costurando roupinhas de boneca, não imaginaria um futuro num laboratório analisando materiais poliméricos e compósitos. Desejava ser engenheira, apesar de ser advinda de uma família de comerciantes. Foi para Campina Grande cursar o ensino médio, passou a adolescência desbravando a capital, quando finalmente decidiu prestar vestibular para Engenharia de Materiais, na Universidade Federal da Paraíba.

Nessa interdisciplinaridade da física e química, Jania Betania pensou em vir para o estado da Bahia para estagiar. “Já existia essa prática de sair para estagiar em outros estados, pensei: eu vou estagiar no Polo Petroquímico, em Camaçari, mas tinha pensamento em seguir carreira acadêmica. E no último semestre, passei para a Politeno, hoje Braskem”, conta.

Porém, antes de sair da antiga Politeno, apareceu a oportunidade de estagiar no Centro de Pesquisas e Desenvolvimento (Ceped), hoje parte da estrutura da Secti. Depois, iniciou o mestrado em química aplicada na Universidade do Estado da Bahia (Uneb), com sua pesquisa na área de materiais poliméricos, nanomateriais: para indústria automobilística. “Fui selecionada para participar de uma escola de verão no México. Foi uma experiência muito boa, logo no início do mestrado”.

Hoje, professora da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), em Cruz das Almas, responde pela coordenação do curso de Engenharia mecânica. Encarou o desafio, com muita leveza e serenidade, porém cheia de perguntas: Quem trabalha com algo que eu trabalho? Tem alguma indústria aqui em Cruz das Almas? Trabalham com o quê?

Descobriu uma empresa de calçados infantis que tinha problemas com resíduos. “Pronto, me encontrei! Dos solados de tênis e todos os materiais e calçados que eles produzem eles têm rejeitos de EVA. Fui visitar a empresa e eles disseram ‘Olha, isso aqui a gente produz em média 160 kg por mês desse resíduo e não podemos jogar no meio ambiente porque há políticas ambientais’”.

Aperreada com a questão, resolveu pesquisar e achou um modo de trabalhar com aquilo, despertando o interesse dos alunos de criar uma resolução para o problema. Quando ‘deu fé’, o projeto desenvolvido junto com um professor de mecânica da UFRB para utilizar resíduos de calçados como revestimento acústico interno para sala de aula, foi aprovado pelo CNPq.

“Percebi que alguns alunos mudaram completamente o comportamento desde que começaram a trabalhar com o projeto, porque a sensação que eu tinha quando cheguei lá é que os alunos se sentiam inferiores. Outro dia um me falou ‘Estava lendo uma matéria que lá nos Estados Unidos eles estão fazendo um projeto semelhante ao nosso’. Eles se viram capazes. Acho que é dessa maneira que a gente pode aliar a pesquisa, a ciência, aliada à tecnologia, à possibilidade de aplicar aquilo”, alegra-se.

Essa é uma das motivações que leva a pesquisadora a viver de segunda a sexta na cidade de Cruz das Almas, distante cerca de 152 km da capital baiana, para encontrar seus alunos e ser feliz, como ela relata.

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Mesmo com a família distante [vai à Paraíba pelo menos três vezes por ano], Jania Betania faz questão de passar o final de semana em Salvador, para saborear o melhor da cidade.

Para aproveitar o tempo na capital baiana, não dispensa as corridas na orla, cinema, teatro e outros passeios, certamente para manter a rotina do tempo que jogava vôlei, ainda que de forma amadora. Não acha a rotina cansativa.

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Com essas doses diárias de otimismo, traça o futuro desejando produzir mais projetos. “Os melhores projetos sempre são os que estão por vir, me dá energia e segurança para saber que tudo é possível se você quiser. Posso desenvolver coisas novas que podem dar certo ou errado. Errado não é ruim, é sempre bom, porque cria aprendizado”, disse.

Jania Betania enxerga a vida que nem a onça de um dos poemas de Guimarães Rosa: “onça pensa só uma coisa — é que tá tudo bonito, bom, bonito, bom, sem esbarrar”, fala o autor. “Quando a gente enxerga o que é bom e o que é bonito, as coisas tendem a dar mais certo”, concorda a pesquisadora.
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