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31/05/2016 10:00

Música indelével

Por Marcia do Amparo

Postura. Concentração! Separe martelo, chaves de fenda, plaina e alicates. Atenção: o som vai começar. Entre Mi5, Lá4, Ré4 e Sol3, ouve-se uma sinfonia peculiar. O regente segue com tubos de PVC, fibra de vidro, resina, gesso... mas, afinal, quem é o maestro? A batuta é de Alan Jonas Brito, paulista de Jundiaí, mas baiano criado na cidade de Caculé, a cerca de 700 quilômetros da capital baiana, localizada na região do Polígono das secas.

Chegou a Salvador no ano de 2010 para cursar licenciatura em música na Universidade Federal da Bahia (Ufba). Ficou sabendo através do colega de sala sobre o projeto de lutheria do Neojiba (Núcleos Estaduais de Orquestras Juvenis e Infantis da Bahia) e conseguiu uma vaga de aprendiz para o ofício. O garoto de Caculé, que contrário à canção de Jackson do Pandeiro, tem um jeito sereno, detalhista e concentrado, dedica seus dias de trabalho a projetar, fabricar e finalizar com perfeição violinos e violas de plástico, feitos com tubos de PVC.

Hoje, responsável pela Coordenação Técnica e Pedagógica do Atelier da Orquestra Plástica, situada em Simões Filho, dentro do Centro Educacional Santo Antônio, das Obras Sociais Irmã Dulce, o luthier pesquisa novas formas de tecnologias e conceitos de inovação que possam ser aplicadas na construção de instrumentos musicais. Com um custo de produção mais viável financeiramente, os primeiros violinos confeccionados já estão sendo tocados por jovens e crianças atendidas pelo projeto.

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Mas até chegar aos violinos de PVC, Alan Jonas percorreu uma longa estrada pelo sertão nordestino. Chegou em Caculé com apenas 7 anos de idade. O município de aproximadamente 20 mil habitantes, considerado um “Pedacinho do Céu”, e, mesmo com poucos recursos, nutriu o sonho do garoto, que chegado da cidade grande achou tudo muito diferente. Aquelas procissões, alvoradas e louvores da igreja ajudaram Alan a perceber a música do lugar. Filho de baiano e pernambucana, coube a um tio, de terras paulistas, mandar o primeiro instrumento para Alan Jonas.

“Comecei a tocar cavaquinho com 12 anos de idade, quando meu tio mandou lá de São Paulo junto com uma pasta de chorinho. Tocava, estudava e quando ele vinha para Caculé, ele avaliava para saber se estava bom. Com 13 anos, tocava cavaquinho e violão e comecei numa banda dessas de interior, acompanhando voz e teclado. Depois de um tempo, comecei a tocar na igreja. Tinha um teclado parado. Pensei: rapaz, tenho que dar um jeito de tocar esse teclado”, contou.

O interesse pela composição, harmonia, ritmo e melodia das canções só cresciam. E essa sede pelo ofício cresceu ainda mais quando uma igreja de Vitória da Conquista doou um piano para a igreja de Caculé. “Tocava de manhã, de tarde e de noite”, mesmo em uma cidade sem nenhuma escola de música. Seu destino estava traçado. Era hora de arrumar novamente as malas em busca do sonho de cursar música, em Salvador.

Tentou vestibular pela primeira vez, mas não conseguiu passar. Mas como diz a música de Accioly Neto, famosa na voz de Flávio José: "Se avexe não, que amanhã pode acontecer tudo, inclusive nada". E nesse passo, vamos ao próximo acorde. Estudou, estudou, estudou e, finalmente, conquistou a vaga para licenciatura em música. Ouviu a música que saía das nuvens. Foi com a cara e a coragem que adquiriu com a vida no sertão, que Alan Jonas desembarcou na capital baiana. “Vim com uma bolsa e uns instrumentos na mão. No primeiro momento, foi um pouco difícil por não ter o feeling da cidade grande”, lembrou.

Superou. Almejou. Determinou. Talvez tenha ouvido a voz de Gilberto Gil “Se oriente, rapaz, pela constelação do Cruzeiro do Sul [...] Vê se compreende Pela simples razão de que tudo depende de determinação”. Alan Jonas enxergou o invisível por entre tons, semitons, ressonâncias, quando encontrou a arte da luthieria. A profissão, que tem como objetivo produzir artesanalmente instrumentos musicais, lhe deu mais um desafio: unir inovação e sustentabilidade. No primeiro ano de projeto da orquestra Plástica Neojiba contou com a supervisão do luthier suíço André-Marc Huwyler.

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Alan Jonas fala sobre o primeiro protótipo de instrumento de plástico criado por Natan Paes, da cidade de Angical. “Ele criou um instrumento similar a um violino e trouxe aqui para a Secretaria de Justiça, Direitos Humanos e Desenvolvimento Social (SJDHDS) do Estado da Bahia, e essa pessoa falou: mostra para Ricardo Castro, que ele vai se interessar. Mas o instrumento ainda não estava apropriado para poder fazer parte de ensino ou a parte musical”.

Desde então, o luthier tem a missão de desenvolver tecnologia para aprimorar os instrumentos plásticos. Buscando a afinação e toda estruturação de instrumentos convencionais, Alan Jonas com seu irmão e três aprendizes convivem quase que diariamente com as questões químicas dos materiais utilizados, estéticas e toda parte filosófica da questão.

Nosso personagem conta que o PVC não tem propriedades acústicas como a madeira, portanto o alcance sonoro dele será menor. Contudo, o violino de plástico tem o timbre do violino de madeira. Com matéria-prima reutilizável, esses instrumentos possuem mais resistência a impactos físicos e redução de manutenções. “O maior diferencial é que ele é fabricado para poder ensinar”. Desta maneira, o acesso à música para crianças e jovens acontece como o som de um violino: acentuado, aveludado e com alma.

A alma do violino é um cilindro de madeira que fica dentro do corpo do instrumento, abaixo do lado direito do cavalete. Realiza a ligação mecânica e acústica entre o tampo superior ao inferior do violino, permitindo que o som vibre por todo o corpo do equipamento. Alan Jonas leva sua alma de violino para todo canto. Quando não está no atelier da orquestra plástica, gosta de aproveitar o tempo fazendo artesanato, principalmente barquinhos para garrafas.

Distrai-se desenhando, tocando e ouvindo músicas do período do final do renascimento. Beethoven, Schubert, Mozart, Tchaikovsky estão na playlist. Aliás, a música é sua companheira em todas as horas. Pode ser erudita, pop, jazz, rock: lá está ela nos mais simples gestos do dia-a-dia. Lavando a louça, assistindo um filme, um espetáculo teatral. E é justamente música, da melhor qualidade, produzida pela NEOJIBA, que estará disponível ao público no grande encerramento da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, no dia 22 de outubro deste ano, no Senai Cimatec, preparado especialmente para o evento organizado pela Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação (Secti).

Dos planos para o futuro, deseja contribuir no projeto e criar novos instrumentos. Quem sabe um contrabaixo de PVC? Assim, Alan Jonas compõe a sua trilha sonora de vida e conduz seu trabalho com maestria, inspirado nessas palavras de Martin Luther King:

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