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01/08/2016 09:00

De malas prontas para o futuro

Por Marcia do Amparo

Tire a primeira camada: cabelo rosa, unhas da mesma cor, tatuagem. Vá mais além e encontre inteligência, empoderamento e delicadeza. Isa Sobrinho é dona de suas conquistas e vontades. Ultrapassar o limite, atravessar, transgredir. Esse é o início do caminho na tecnologia, área na qual Isa faz suas descobertas para agregar ao seu trabalho de designer.

Com 24 anos, Isa tem muitas linhas para desenhar ou melhor: para contar! “Se eu estou com vontade agora, eu faço [...] É a primeira vez que pinto de uma cor marcante assim”, disse, em referência ao cabelo curto em tons de rosa. Sobre o trabalho na área do design gráfico, confessa ter tido influência da sobrinha-neta, que cursou design de produto. Filha do segundo casamento do pai, experiente engenheiro, e com a mãe graduada em matemática, Isa tem um irmão caçula e outros três na faixa dos 50 anos, o que lhe rendeu alguns sobrinhos-netos.

Soteropolitana, morou em São Paulo alguns anos, onde começou a cursar design. Voltou para Salvador e desde o segundo semestre da faculdade ingressou no mercado de trabalho baiano.

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Cuida de dois gatos, companheiros durante as jornadas de trabalho e do dia-a-dia, principalmente, depois do falecimento da mãe, há cerca de três anos. Na época, Isa passava por uma crise de depressão. “Quando ela faleceu, “suprimi” a depressão. Não sei explicar. Foi um choque de realidade: ou eu acordo para a vida agora ou não vou sair disso aqui nunca”. Cecília Meireles disse “aprendi com a primavera a deixar-me cortar e a voltar sempre inteira”. Para Isa, vivenciar esse momento abrupto, onde perdeu sua mãe, pode ter ceifado sua alegria e determinação por um tempo. Um período de luto, tortuoso e, silenciosamente, de dor irreparável.

Depois de se deparar com a perda, decidiu focar na vida acadêmica, foi quando conheceu o professor Daniel Marques, saindo do estado de letargia, como ela mesma define: “Ele foi o professor que me chacoalhou da cadeira. Eu estava sofrendo de depressão nessa época e ele me incentivou a trabalhar e produzir”. O jogo virou com um desafio encarado no ano de 2014. Foi quando participou do Hackathon, da Natura, e, selecionada, passou seis meses no Media Lab, do MIT, para desenvolver sua ideia. Antes, ficou dois dias em São Paulo, vivendo o processo de funcionamento da empresa Natura.

Isa explica que “foram oito proponentes e oito acompanhantes, além de outras oito pessoas da Natura que se submeteram aos projetos, mais oito pessoas do MIT que estavam lá como suporte para criação dos projetos”. Foi um processo de imersão. São dois dias para concepção, criação, prototipagem e apresentação. Um desafio e tanto, que ela define como intenso, legal e estressante. E talvez tenha sido o estresse que a faz pensar ter esgotado as possibilidades de um bom projeto. Foi quando teve um insight ou, como gosta de falar, uma epifania. “Eu estava andando pela sede da Natura, aí vi uma coisa que me fez despertar e ter a ideia”.

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Selecionada com o projeto VirVer, que pretendia gerar uma experiência relaxante através de óculos, máscara ou outro objeto aplicável, com fones de ouvido acoplados e sistema de reconhecimento de voz, que, através de comandos do usuário, o transporta para ambientes naturais através do som e aromas liberados. E com esta ideia na cabeça, embarcou junto com a amiga Nil, profissional de marketing, para Boston, onde desenvolveu outras inovações para o projeto.

Esta experiência ímpar, Isa Sobrinho descreve com os melhores adjetivos. “Mudou a minha vida. Foi incrível, maravilhoso. Eu não sei descrever. Foi uma das melhores coisas que aconteceu na minha vida e muito desafiador. Tive que superar vários medos e aprender muitas coisas em pouco tempo, mas cada segundo valeu, cada minuto valeu, as pessoas que conheci, as coisas que aprendi”.

Nesta viagem ao passado, lembra que o primeiro dia foi assustador. Quando percebeu que a professora do seu grupo era a terceira mulher mais importante do Japão, perguntou-se: Como lidar com isso? O inglês sumiu, o nervoso bateu, a mão tremeu. Passado o “susto”, percebeu que tinha muita coisa para aprender, um ambiente novo, multidisciplinar. Decidiu viver os seus dias como se estivesse em um espaço do futuro. “Aprendi que estar no espaço de inovação é crucial para inovar”. Voltou feliz e cheia de dúvidas. Hoje, sabe que vai terminar o Trabalho de Conclusão de Curso e ingressar em um mestrado fora do Brasil, ao menos já está de malas prontas para o futuro.

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Enquanto isso, como boa “nerd”, prefere o videogame a um filme. Os longas metragens a deixam com sono. No teatro vai pouco, somente quando o primo ou o amigo, que são atores, apresentam algum espetáculo. Torcia para os Lakers, mas hoje nem assiste – não tem TV em casa. Joga Pokémon, o game tradicional, enquanto espera a chegada do Pokémon Go ao Brasil, reforçando o gosto em fazer parte do mundo geek.

Para ser telúrica, ouve metal. As músicas preferidas são aquelas que escuta na hora. Aos risos, confessa que atualmente escuta músicas da Disney para trabalhar. Isa faz aulas de canto e gosta de interpretar I'd be rather go blind, de Etta James. Sobre misto, diz que “é porque tem uma letra muito forte. É uma chama. É muito triste, mas bonita, sobretudo”.

Da infância guarda boas lembranças das férias na fazenda em Goiás. Aprendeu a gostar das plantas e animais. Descobriu também na infância o diagnóstico de Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH). Seus pais resolveram não usar remédios e sim ocupá-la com atividades como balé, artes, inglês, hipismo, basquete, ginástica olímpica, dentre tantos outros.

Foi uma adolescente rebelde, mas aprendeu senso de equipe, trabalho, esforço e coletividade. Tudo isso, graças ao esporte. Talvez o talento para o design tenha aflorado nesta época.

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Desta maneira, “eu criava histórias para ilustrar esses pensamentos”.

A coletividade prevaleceu com a experiência do MIT. Aprendeu a valorizar o seu tempo e o tempo dos outros. Depois do hackathon, da Natura, participou de outro hackathon, o da Globo. Ele avalia que “as pessoas, hoje em dia, estão muito mais sintonizadas no que é maker, no que é hackathon. [O hackathon Natura] foi em 2014, então dois anos fizeram uma diferença enorme para esse segmento, o empreendedorismo no Brasil, o movimento maker, a tecnologia. Isso foi legal de ver”.

Em relação à experiência profissional do hackathon Natura, Isa afirma que a viagem proporcionou “entender que as pessoas mais incríveis do mundo são humildes. Convivi com várias pessoas que são brilhantes e que são 50 mil vezes melhores, tipo: estou aqui fazendo meu trabalho, vivendo minha realidade louca de robôs e, ao mesmo tempo, tendo tempo para lidar com uma pessoa como eu”.

Dos planos para o futuro, pensa em tirar um ano sabático para realizar os cursos que tem interesse, como fotografia, gastronomia, engenharia, neurociência, design de produtos. Sair do Brasil é uma meta. Pretende ter filhos e criá-los em um lugar onde seja possível ir de bicicleta para a escola. O curso de meditação ajuda a ter concentração a organizar vida. O apoio do pai, do namorado, do professor e dos amigos colaboraram com a menina que anseia pela segunda-feira. Se Tom Zé canta, “menina, amanhã de manhã, quando a gente acordar, quero te dizer que a felicidade vai desabar sobre os homens”, Isa desperta e grita: “Yes, hoje é segunda-feira. Adoro fazer o que faço, trabalhar”.
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