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08/07/2019 11:00

Entrevista exclusiva da vice-coordenadora do Cidacs, Maria Yury Ichihara

Criado em 2016 e vinculado à unidade do Instituto Gonçalo Moniz/Fiocruz Bahia, o Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para a Saúde (Cidacs) é um dos mais inovadores centros de pesquisas de saúde do Brasil. Conta com equipes de cientistas de várias áreas e realiza estudos e pesquisas com grandes bases de dados em plataformas como a de Coorte de 100 Milhões de Brasileiros, a Plataforma Zika e Tecnologias e Inovações para o SUS, entre outras. A plataforma de  estudos Coorte de 100 Milhões de Brasileiros, com dados de 114 milhões de pessoas de famílias de baixa renda (que ganham até meio salário mínimo por pessoa ou até três salários mínimos de renda mensal), atualmente é o principal produto  do centro e já está divulgando os primeiros resultados, como o que demonstrou que o Bolsa Família reduz a incidência de tuberculose e hanseníase. Coordenado pelos médicos Maurício Barreto e Maria Yury Ichihara, a doutora em saúde pública pela Ufba falou à Muito sobre o funcionamento da instituição e os impactos que os projetos em andamento podem causar à sociedade. “O nosso foco é trabalhar com dados administrativos, fazer integração de dados e produzir conhecimentos  tanto em determinação social quanto em avaliação de políticas”.

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O Cidacs existe desde 2016 e usa uma base de dados para produzir conhecimento científico. Como isso acontece na prática?

A gente trabalha com bases de dados administrativas, que são diferentes das bases de dados de pesquisa. As de pesquisa são aquelas que o próprio pesquisador cria a sua população-alvo, cria o seu objeto de investigação e um instrumento ao qual ele vai coletar. Pode ser apenas um questionário ou medidas. Por exemplo, quem trabalha com nutrição leva balança e fita métrica para fazer as medições antropométricas. Não é o nosso caso. A gente trabalha com dados administrativos.  É uma base que o governo coleta, principalmente os dados de saúde, para poder monitorar a saúde da população brasileira. Nós temos, por exemplo, a base de dados de nascimentos. No Brasil, quase 99% dos nascimentos ocorrem nos hospitais e é lá que é preenchida a declaração de nascidos vivos, com várias informações que dão suporte para os dados civis, que são os dados da certidão de nascimento, que só pode ser tirada se a pessoa tiver essa declaração. O governo criou o Sistema Nacional de Nascidos Vivos em 1994 e, a partir daí, essas informações vêm crescendo em qualidade, já que para implantar um sistema nacional precisa começar na instância municipal e ir crescendo. A base de dados é construída assim: você tem um instrumento que coleta essas informações,  tem um fluxo de quem alimenta esse sistema e tem, no final, a disponibilização.  Hoje essa disponibilização dos dados é feita pelo Datasus, que identifica as informações, retira os dados sensíveis e disponibiliza no site. Lá você encontra nascidos vivos, óbitos, internações, sistema de notificação de doenças, que são os dados administrativos do governo federal que  usamos.  

A partir desses dados, o que o Cidacs está pesquisando? 

Toda nossa missão aqui é construir bases de dados integradas para produzir avaliação de políticas. Estamos trabalhando para construir a Coorte de 100 Milhões de Brasileiros, que é muito complexa, porque nós partimos dos dados do Cadastro Único do governo federal, que possui 114 milhões de pessoas, para juntar com a base dos programas sociais. Hoje temos as do Bolsa Família e do Minha Casa, Minha Vida e  estamos conseguindo o Cisternas para o Semiárido  e  temos os Desfechos em Saúde, então, a gente tem os dados de tuberculose, zika, as arboviroses, dengue, chikungunya, hanseníase. Tudo isso, principalmente, para atender questões da saúde infantil. A gente já vinha tendo várias evidências de que políticas sociais reduzem a mortalidade infantil e reduzem algumas doenças que são sensíveis a essa mudança de condição, como diarreia e pneumonia. Doenças que estão muito relacionadas com a desnutrição e com a pobreza.

Já é possível ter resultados dessas pesquisas?  

Alguns estudos já foram feitos, mas no nível agregado, como o que demonstrou que o Bolsa Família reduz a incidência de tuberculose e hanseníase. Recentemente, nós publicamos um artigo que mostra a redução da incidência de hanseníase e o aumento da adesão ao tratamento da doença  devido ao Bolsa Família. Essa é uma primeira demonstração de que há um efeito da política pública. Além desse, temos outros estudos em andamento, e o impacto da produção dessas evidências é que quando a gente demonstrar alguns efeitos e as relações que isso  tem a ver com a situação social das populações, principalmente as subáreas, a gente não vai só poder focalizar política, mas definir qual a melhor estratégia para controlar e  melhorar a situação de crianças e jovens.

Este ano os casos de dengue na Bahia aumentaram 459%, e o Aedes aegypti também é responsável pela transmissão do zika vírus. A zika, por outro lado, teve uma diminuição de 24,2%. Alguns pesquisadores falam que a população não estava imunizada para a zika, e agora está. Por que as pessoas se imunizam para a zika e não para a dengue?

A dengue tem vários sorotipos, hoje existem mais de quatro sorotipos da dengue e, na verdade, ela imuniza para aquele sorotipo. Se você teve a 1, você não vai ter mais, mas como são vários, e é um vírus, a gente não tem vacina e não tem como garantir uma imunidade permanente, às vezes essa imunidade é só temporária. Se olharmos a vacina da gripe, percebemos que a eficácia dela é baixa, porque há mais de 100 tipos de vírus circulando. Trabalhar com vírus não é fácil, é muito difícil, porque determinados vírus têm uma capacidade de mutação muito grande. A zika teve um crescimento e uma redução, por conta da suscetibilidade. Um vírus que entra novo na população a gente não tem nenhuma proteção, porque ninguém desenvolveu anticorpos. À medida que ele vai acometendo, as pessoas vão desenvolvendo anticorpos,  e ele não tem mais a capacidade de se reproduzir da forma mais rápida como quando  entra. Só que na medida em que as pessoas vão se tornando imunes,  ele não tem mais como se espalhar. Essa é a questão da zika, que ainda não está muito bem estudada; ainda não se sabe se, por exemplo, existem infecções não manifestas, e essa  é uma das questões que o grupo aqui está avaliando, o quanto realmente  a zika, por uma questão própria de imunidade do indivíduo, ficou  latente. Em algum momento, vai se manifestar. 

Em entrevista ao El País Brasil, a pós-doutora Daiane Borges Machado, do Cidacs, falou sobre o decreto presidencial que facilita o porte de armas. Ela disse que, diminuindo o número de beneficiários do Bolsa Família e aumentando a quantidade de armas nas casas, a violência pode aumentar. Para a senhora, essa relação é possível?

Quem é que morre hoje por homicídio? São adultos jovens de 15 a 29 anos e negros. Quem são essas pessoas? São as pessoas mais pobres, são as pessoas que estão nessa situação de maior risco de vulnerabilidade social. Se eu dou um recurso que, para  receber, a pessoa é obrigada a ir para a escola, então já a tira de uma situação de vulnerabilidade e possibilita que ela desenvolva uma profissão, para ter um conhecimento e poder melhorar. O Bolsa Família tem uma condicionalidade que é obrigatório para o jovem de 15 a 17 anos permanecer na escola, e essa idade é exatamente a idade em que  as pessoas se profissionalizam. É o nível médio, e também onde há o maior índice de evasão escolar no país. Até dois adultos jovens de uma família têm a possibilidade de receber o benefício variável, que muda ao longo do tempo, hoje está em torno de R$ 35. Eu já vi muitas pessoas reclamando que esse dinheiro é muito pouco, mas, para uma pessoa pobre, R$ 35 é muito dinheiro. Ela pode comprar comida, pode comprar uma sandália havaiana, pode fazer uma série de coisas para se manter na escola e ajudar a família. Então, este fato faz com que essa violência diminua. Se eu tiro pessoas que estão vulneráveis na rua, que estão interagindo em um mundo violento, eu garanto a sobrevivência. Já que ela tem um recurso, ela vai pensar: “Para que  se expor aos riscos?”.  Vai acontecer de a pessoa optar por isso, em algum momento, a gente não está falando que acaba, mas que reduz,  reduz bastante.

Uma das plataformas de pesquisa de vocês é voltada para inovação no SUS. No mês passado, o ministro da Saúde defendeu durante uma entrevista que o SUS não fosse 100% gratuito para todos. Caso isso realmente aconteça, como ficaria a pesquisa? Pode prejudicar?

O SUS, constitucionalmente, é universal e gratuito, a ideia é ter essa visão solidária de atender a todos. Hoje o SUS atende todo mundo e as pessoas que são mais abastadas têm um recurso muito grande do SUS por conta dos transplantes, por conta dos tratamentos quimioterápicos e neoplásicos, uma série de tratamentos que são muito caros e que os planos de saúde não cobrem, e essas pessoas acabam indo para o SUS. O sistema procura fazer o melhor, os tratamentos mais caros, como o coquetel do HIV, são exemplos de como o SUS é custoso. Eu considero que para a avaliação de políticas não teria impacto porque o SUS vai continuar existindo, a questão é como esse SUS vai se formar. A nossa luta, dos profissionais sanitaristas e de saúde pública, é que o SUS não seja um SUS de pobres. Hoje ele tem uma visão hegemônica médico-assistencialista. Mas que  fosse da promoção, porque se a gente promove uma boa saúde,  promove bons hábitos, se  realiza uma política de promoção da saúde,  evitamos doenças, mesmo as de notificação compulsória, mesmo as infecciosas. Se eu consigo ter uma boa higiene com a criança, com cuidados dentro de casa e no domicílio, eu posso evitar a diarreia infantil. É claro que isso também depende de um ambiente que favoreça, tenha água encanada, coleta de lixo regular, saneamento básico... Mas se  faço  uma política de promoção, evito doenças e não sobrecarrego o SUS. Mas se  começo a colocar uma visão financeira, de que é preciso que os ricos suportem o Sistema Único de Saúde, o que é que vai acontecer? Acaba virando um plano de saúde. Então, quem é rico vai dizer que está pagando, e vai causar um desequilíbrio no atendimento e  vamos voltar com o que acontecia antes no Inamps, onde só eram bem atendidos aqueles que pagavam, os que não pagavam eram considerados indigentes e iam para os Serviços de Plantão 24 horas, sistema que atendia os pobres. Para mim, o impacto que isso vai causar ao SUS é muito sério, é inconstitucional, porque vai criar uma diferença no sistema  que é universal e é gratuito, e hoje as pessoas que podem pagar planos de saúde já têm a sua assistência fora do SUS.      

O Cidacs também funciona com bolsas de pesquisa. Mas, de acordo com o presidente do CNPq, o órgão só teria condições de pagar integralmente os pesquisadores até setembro deste ano. Isso põe em risco as pesquisas realizadas aqui?

Isso põe em risco as pesquisas no Brasil, os cientistas todos, as associações de professores estão se mobilizando contra essas medidas, que claramente  terão impactos muito profundos na ciência. Se eu não tenho mais pesquisadores, como é que a ciência funciona? É necessário ter esse suporte financeiro, não só para desenvolver os projetos, como também para ter bolsistas que possam desenvolver os projetos, porque não é só desenvolver os projetos, é possibilitar uma formação de profissionais capazes para produzir ciência. Se a gente interrompe e não dá bolsas, a gente cria dois mecanismos perversos, um é que não há formação de novos cientistas e outro é que interrompe a condução de novas pesquisas.

Isso poderia levar à diminuição de profissionais do Cidacs ou ao fechamento?

Fechamento do centro, não. Nossos recursos são recursos de projetos, apesar de termos alguns doutorandos, mestrandos, profissionais de iniciação científica que vêm dos programas de pós-graduação das universidades. Muitos profissionais que são contratados para  os nossos projetos são internacionais, então, isso não afetaria a condução do centro. Hoje, o Cidacs  pertence à Fiocruz, que  sabemos que vai ter cortes para o ano que vem, mas  funciona com poucos recursos da Fiocruz, porque sabemos que os recursos da Fundação Gonçalo Moniz já não são amplos. A gente tem servidores da Fiocruz, pagamentos condominiais, energia, profissionais terceirizados, etc. Mas a maior parte vem de projetos internacionais, da fundação Bill e Melinda Gates, da Wellcome Trust, London School, Newton Fund. Nós somos cientistas, pesquisadores profissionais que estamos aplicando projetos necessários  para a sociedade brasileira e que vão ter impactos muito profundos no conhecimento, nas doenças que incidem mais no país, focalizando políticas adequadas. 

Fonte: A TARDE / REVISTA MUITO
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