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14/12/2016 09:50

Vocação. Voz e ação!

Por Renata Preza

Bendita seja Benedita. A jovem que morreu de forma trágica pelas mãos do marido, cerca de 50 anos atrás, nunca soube que desempenhou papel fundamental para que Tânia Maria Diederichs Fischer se tornasse a profissional que é. Hoje é reconhecida nacionalmente, principalmente pela comunidade acadêmica, da área em que é pós-doutora, a Administração.

Engana-se, no entanto, quem acha que apenas intelectuais valorizam o trabalho de Tânia Fischer, nome que consta em incontáveis trabalhos produzidos pela gaúcha, radicada na Bahia há mais de 30 anos, muitos utilizados como referência bibliográfica país afora. Pessoas assistidas por programas de habitação e que, muitas vezes, precisam escolher se almoçam ou jantam, também sabem quem é a professora Tânia e sabem mais do que isso: sabem que ela pode contribuir para transformar vidas, usando de uma vasta gama de artifícios, inclusive da tecnologia.

Nos idos da década de 60, aos 15 anos, a descendente de alemães - nascida e criada em uma propriedade rural, situada em uma cidade do interior do Rio Grande do Sul, mantida pelo pai, servidor público, e pela mãe, dona de casa - já tinha trabalho com carteira assinada. A precoce carreira se iniciou após participar de um curso ministrado por ninguém menos que o mundialmente reconhecido educador, pedagogo e filósofo brasileiro Paulo Freire. Ali, seu destino profissional começava a ser traçado, quando dava aula de português para detentos, no porão de uma igreja do bairro em que residia. “O grupo deveria escrever uma palavra de quatro sílabas e quando um deles se afastou do quadro, já aos prantos, a palavra que se via era BE – NE – DI – TA. Em meio ao silêncio gélido que se formou, um colega cochichou para mim que era o nome da esposa, que o havia traído e a quem assassinou. Foi ali que eu descobri que o ser humano é fantástico, capaz de um ato da maior grandeza e sensibilidade e de verdadeiras atrocidades”, narra Tânia.

O gosto pela Administração veio quando ajudou a professora Isolda Holmer Paes, uma das responsáveis pela criação do Colégio de Aplicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a criar o Laboratório de Metodologia e Currículo. Logo veio o Mestrado pela UFRGS, Doutorado concluído na Universidade de São Paulo e Pós-Doutorado realizado em países como Espanha e França. Nesse meio tempo, a Administração, responsável por levar Tânia a outros países, também foi o agente causador da vinda da pesquisadora para terras baianas. A pós-doutora foi convidada pela Universidade Federal da Bahia (Ufba), em 1983, a participar da criação do primeiro programa de pós-graduação formal (strictu senso), mestrado, que, inclusive, coordenou, posteriormente.

Sem deixar de lado as origens, Tânia não esconde de ninguém o amor que sente pelo estado nordestino, que lhe abriga há tantos anos. A ‘mãe universal’, a ‘célebre Bahia’, de que falava Gregório de Matos em um de seus poemas, deu para Tânia, ainda, um dos maiores presentes: um companheiro de uma vida. Ela é casada com o também emérito professor Antônio Celso Spinola Costa, um dos fundadores do Instituto de Química da Ufba.
A intensa trajetória rendeu relevantes honrarias. Uma delas, a Medalha de Ouro 50 anos de Pós-Graduação Brasileira, concedida em 2005, pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes); Outro prêmio de peso é o Título de Pesquisador Emérito do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, dado em 2016. O reconhecimento foi prestado – ela confessa que audaciosamente perguntou às instituições - pela produção voltada à sociedade. “Os textos que eu escrevo são importantíssimos, porém mais salutar é aquilo que se faz para impactar na vida das pessoas”.
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Inspirada, talvez, pelo célebre docente Paulo Freire, que dizia que ‘Não se pode falar de educação sem amor’, a pedagoga de formação tem se dedicado a formular iniciativas que estruturem, minimamente, o cotidiano de quem vive em comunidades pobres, por vezes, redutos indígenas ou mesmo quilombolas. Ela é líder do Centro Interdisciplinar em Desenvolvimento e Gestão Social (Ciags), vinculado à Escola de Administração da Ufba. Além disso, nossa personagem ministra diversas palestras e exerce o trabalho como conselheira em entidades estratégicas – o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) é uma delas. Não bastasse todas estas atividades, Tânia se lançou ao desafio de implementar o Projeto de Desenvolvimento Integrado e Sustentável, convivendo com moradores de conjuntos integrantes de programas de habitação governamentais situados em locais pouco urbanizados.

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Conhecido por derrubar teorias científicas no Século XVIII, Lavoisier disse que ‘Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma’. Movida pela realidade conectada que nações de todo o mundo experimentam, Tânia contrariou o químico francês e transformou as intervenções que desenvolve, in loco, nas comunidades, migrando-as para o mundo digital, criando o projeto Labor, cujo desafio é aliar tecnologia com a pobreza extrema existentes nos territórios em que realizamos trabalhos. “Hoje em dia, esses meninos todos têm celulares e ficam o tempo inteiro com a atenção voltada para os dispositivos. Eles já são conectados. O que não se construir em paralelo, de forma híbrida, de modo que se tenha a realização e, ao mesmo tempo, permitindo que tecnologia tenha destaque, atualmente, não conta com uma adesão relevante, não há como manter o interesse. Labor é presente e futuro”, vislumbrou.

Sentindo-se privilegiada por ter acesso a um ensino público, quando ainda era uma jovem, morando no Rio Grande do Sul, quatro décadas atrás, Tânia Fischer está contribuindo para que a confiança em uma universidade pública seja sentida por gente que antes carregava armas e hoje carrega livros. É o caso de um dos participantes do Projeto de Desenvolvimento Integrado e Sustentável que pediu que a professora realizasse uma solenidade de formatura para que a mãe pudesse vê-lo recebendo um atestado, fato que Tânia conta com emoção no olhar, “na sala bonita que ele via do ônibus”, referindo-se ao Salão Nobre do Palácio da Reitoria da Ufba, situada no Canela, em Salvador. O pedido foi levado ao atual João Carlos Salles, que concordou. A cerimônia não demora a acontecer.

O verso ‘cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é’, do baiano Caetano Veloso, se aplica à esta professora. A consciência de que ainda há muito a ser feito se une à satisfação de, aos poucos, transformar vidas. Uma coisa é certa: Tânia Maria Diederichs Fischer pode aquietar o lado ávido por desafios: o que não falta, infelizmente, são comunidades inteiras que precisam de ajuda. É nesse campo empírico e de evolução que ela pode (e deve) continuar a mostrar o poder do intelecto, aliado à tecnologia, transformando realidades e gerando inovação.
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